
Embora a inteligência artificial já faça parte do vocabulário da maioria dos empreendedores brasileiros, sua aplicação prática ainda não está consolidada, especialmente entre pequenos negócios. Dados do Sebrae indicam que 96% das empresas afirmam conhecer recursos de IA, mas menos de 50% utilizam a tecnologia de forma recorrente no cotidiano empresarial — um cenário que revela interesse crescente, mas também dificuldades em transformar conhecimento em uso efetivo.
Para a consultora Mariah Sathler, especialista em implementação de inteligência artificial em pequenas e médias empresas e fundadora da Volura.AI, o descompasso aponta para um estágio inicial de maturidade digital. Segundo ela, a tecnologia ainda entra, em muitos casos, como experimentação. “Nos pequenos negócios, a IA costuma entrar como teste ou curiosidade. O empreendedor até conhece a tecnologia e já experimentou alguma ferramenta, mas ela não está integrada à rotina de gestão, vendas ou operação de forma estruturada, nem conectada a objetivos claros”, explica.
O cenário dialoga com dados mais amplos sobre inovação no país. A Pesquisa de Inovação Semestral (Pintec), divulgada pelo IBGE, mostra que 41,9% das empresas brasileiras com 100 ou mais colaboradores já utilizam inteligência artificial — crescimento de 25% em relação a 2022. Entre os pequenos negócios, porém, levantamentos como o Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2024 indicam uso concentrado em aplicações básicas, como gestão de redes sociais, análises simples de dados e automações pontuais.
Conhecer não é integrar
Segundo Mariah Sathler, o diferencial entre pequenas empresas que avançam no uso da IA e aquelas que permanecem estagnadas está na integração da tecnologia aos processos internos. “Muitos pequenos empresários sabem o que é IA, mas não sabem exatamente onde ela pode ajudar de forma efetiva. Sem processos organizados e decisões documentadas, a tecnologia vira apenas apoio pontual, e não uma ferramenta de gestão”, analisa.
Essa lacuna ajuda a explicar a subutilização da IA mesmo diante de ganhos comprovados. A Pintec aponta que áreas administrativas, comerciais e de desenvolvimento de produtos estão entre as mais beneficiadas pela tecnologia, com aumento de eficiência e maior flexibilidade operacional. “Quando bem aplicados, esses ganhos são visíveis independentemente do porte da empresa. O desafio está em entender como a IA pode reduzir retrabalho, organizar informações, apoiar decisões e liberar tempo do empreendedor”, afirma a consultora.
Da experimentação à prática
O avanço da inteligência artificial entre pequenos negócios depende menos de ferramentas sofisticadas e mais de capacitação e organização interna. “Conhecer a IA é só o começo. O verdadeiro diferencial está em saber onde aplicar, com que objetivo e como medir resultado. Esse entendimento é o que separa quem apenas testou a tecnologia de quem conseguiu crescer com ela”, explica Mariah.
Um exemplo citado por ela é o da Bendito Afeto, pequena empresa de cestas de café da manhã localizada em Vitória. Após consultoria da Volura.AI, a empresa passou a integrar inteligência artificial em etapas centrais da operação, com a implementação de um agente conversacional treinado com informações do próprio negócio para atendimento no site, além de automações para confirmação de pedidos e envio de avisos em tempo real sobre entregas via WhatsApp, conectados aos motoristas.
De acordo com a especialista, os resultados incluíram redução de falhas de comunicação, melhoria na experiência do cliente e maior previsibilidade operacional. Novas soluções ainda estão em desenvolvimento, como um agente de atendimento baseado em IA para WhatsApp.
Tendência é avanço estratégico
A expectativa é que o uso da tecnologia avance para uma abordagem mais estratégica. Dados da GEM indicam que 80% dos empreendedores em estágio inicial pretendem ampliar o uso de tecnologias digitais nos próximos meses, e 60% já demonstram atenção específica à aplicação da IA na estratégia empresarial. Um estudo da IBM aponta ainda que aproximadamente metade das empresas que implementaram projetos de inteligência artificial já registra retorno financeiro positivo, enquanto a outra metade segue em fase de testes.
Para Mariah Sathler, 2026 deve marcar a transição de muitas empresas da fase experimental para a implementação estruturada e avaliação de resultados.
Ela reforça que a adoção precisa estar vinculada a objetivos concretos. “Para o pequeno negócio, não faz sentido usar tecnologia só porque está na moda. A pergunta precisa ser: isso ajudou a vender mais, reduzir erros, ganhar tempo ou organizar a empresa? O amadurecimento precisa vir dos dois lados — a tecnologia evolui, mas o empreendedor precisa evoluir junto”, conclui.
