89 ANOS DE CONQUISTA DO VOTO FEMININO. COMO ESTAMOS?

ARTIGO DE PATRÍCIA STILLE

Em 24 de fevereiro de 1932, o Código Eleitoral Brasileiro incluiu pela primeira vez o direito ao voto feminino na legislação brasileira. Ou seja, há apenas 89 anos as mulheres conquistaram o direito de influenciar o debate público. Passados esses anos, como estamos em relação ao empoderamento das mulheres na economia e na sociedade?

Parece loucura, mas as mulheres conquistaram um grupo relevante de direitos perante a sociedade há menos tempo do que a gente pensa. De 89 anos para cá alguns avanços vêm mudando o cenário para uma maior participação feminina na vida econômica do país. Uma realidade que muitas de nós já conhecemos desde crianças, mas que na verdade são marcos bem recentes.

Até agosto de 1962, as mulheres eram consideradas incapazes pelo Código Civil: só poderiam ter um trabalho profissional remunerado ou conta bancária se tivessem autorização do marido. A mudança aconteceu com a sanção do Estatuto das Mulheres Casadas, que alterou o Código Civil e deixou de considerá-las incapazes. A lei, inclusive, reconheceu que a mulher não precisava de autorização do marido para gastar o próprio salário.

Já em 1988 a igualdade entre homens e mulheres foi detalhada em vários aspectos da vida social. Só nesta Constituição foi reconhecido o direito de a mulher ter a propriedade de terras em seu nome. Também foi reconhecido que os deveres da sociedade conjugal deveriam ser exercidos igualmente entre homens e mulheres. E proibiu explicitamente a diferença de salários e funções entre homens e mulheres, muito embora a realidade na prática não faça jus completamente ao que foi fixado na lei, infelizmente até hoje.

No empreendedorismo, as mulheres estão à frente de 43% dos negócios no Brasil. Entretanto, esta participação se reduz quando se avaliam setores mais dinâmicos, como o empreendedorismo de base tecnológica: apenas 11% das fintechs contam com sócias mulheres, segundo o Distrito. Já de acordo com a B3, em dezembro de 2020 apenas 26% dos investidores pessoa física eram mulheres. O valor investido por elas havia sido R$ 98,36 bilhões, ou 21,7% do total negociado na bolsa. É muito pouco.

Mas se nos investimentos em bolsa, cada vez mais populares, a presença feminina é ainda baixa, no mercado de private equity essa participação é muito menor. Olhando para as equipes que lideram as instituições desse segmento no Brasil, um levantamento da International Finance Corporation, braço do Banco Mundial para o setor privado, estima que apenas 8% dos gestores de fundos contam com mulheres na liderança. Nas empresas investidas por fundos de private equity, a participação cai para 6% das empresas e 5% do valor investido.

Para comparação, na China as mulheres estão na liderança de 15% das gestoras de private equity e estão na liderança de 64% das empresas, o maior percentual de participação feminina segundo a IFC.

Falta muito para equilibrar o jogo. Sem dúvida, há um viés sexista que precisa ser superado para se ampliar a participação feminina na vida econômica e financeira do país. É bem mais comum do que parece que, mesmo atualmente, mulheres empreendedoras sejam questionadas pela opção de não ter filhos ou de serem menos presentes na vida familiar pela decisão de se tornarem lideranças executivas.

Mas além das conquistas profissionais, nos mais variados setores e perante a sociedade, a presença feminina nos investimentos ainda é muito tímida e temos um grande espaço para ocupar.

Executivas de peso como Zeina Latif, Maite Leite, Mônica Saccarelli e Cris Junqueira inspiram outras mulheres com suas trajetórias brilhantes, mostrando que mercado financeiro é sim lugar de mulher.

Apesar dessa herança de séculos, em que a mulher esteve apartada da vida econômica formal, esperamos que cada vez mais profissionais ocupem posições de destaque e, principalmente, que o interesse feminino por investimentos aumente. Não só por um ambiente de negócios mais dinâmico e inclusivo, mas pela importância de ter o controle sobre suas finanças e ter capacidade de tomar melhores decisões, exercendo a tão merecida autonomia e, fundamentalmente, liberdade.

 

Patricia Stille é CEO da beegin e sócia do Grupo Solum

 

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