
A inclusão dos riscos psicossociais na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) está ampliando o papel dos profissionais da contabilidade no relacionamento com as empresas. Embora a responsabilidade pela implementação das medidas previstas na norma seja das áreas de Saúde e Segurança do Trabalho (SST), Recursos Humanos (RH) e jurídico trabalhista, cresce o número de empresários que recorrem aos escritórios contábeis para entender quais são as novas obrigações e como iniciar o processo de adequação.
O movimento é observado pelo Sescon Campinas, que registra aumento na procura por orientações, principalmente por parte de pequenas e médias empresas. A principal preocupação dos empresários é compreender até onde vai a responsabilidade da organização na gestão dos riscos psicossociais e quais procedimentos passam a ser exigidos pela legislação.
Na prática, a atualização da NR-1 determina que as empresas identifiquem, avaliem e tratem fatores relacionados à organização do trabalho que possam contribuir para o adoecimento mental dos trabalhadores. Entre os aspectos que passam a integrar a gestão de riscos ocupacionais estão sobrecarga de atividades, jornadas excessivas, metas incompatíveis, pressão constante por resultados, falhas de comunicação, conflitos organizacionais e situações de assédio.
A mudança ocorre em um momento de crescimento dos afastamentos por transtornos mentais no mercado de trabalho brasileiro. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que mais de 440 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais e comportamentais em 2024, mais que o dobro do registrado dez anos antes. Em 2025, esse número subiu para 546.254 afastamentos, um crescimento superior a 15% em relação ao ano anterior. As mulheres responderam por 63,46% dos casos, e os diagnósticos mais frequentes foram transtornos de ansiedade, episódios depressivos e transtorno depressivo recorrente.
Segundo a presidente do Sescon Campinas, Claudia Di Fonzo, os contadores vêm assumindo uma função cada vez mais estratégica ao esclarecer os impactos regulatórios da norma e orientar os empresários sobre a necessidade de envolver profissionais especializados. “Temos observado um aumento das consultas por parte dos clientes, principalmente entre pequenas e médias empresas. Muitos empresários querem entender o que mudou, quais são suas obrigações e como iniciar esse processo de adequação. É importante esclarecer que o contador não substitui os profissionais especializados em Saúde e Segurança do Trabalho, psicologia organizacional ou direito trabalhista, mas desempenha um papel importante como consultor de negócios e elo entre a empresa e as áreas técnicas responsáveis”, afirma.
Apesar do aumento da demanda por informações, o Sescon Campinas alerta que ainda há interpretações equivocadas sobre a abrangência da norma. Uma das principais delas é a ideia de que ações isoladas, como pesquisas de clima organizacional ou programas de bem-estar, seriam suficientes para atender às exigências legais.
Na avaliação da entidade, a atualização da NR-1 exige que os riscos psicossociais sejam incorporados ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), tornando-se parte permanente da política de prevenção das empresas. Isso significa que os fatores relacionados à organização do trabalho deverão ser identificados, avaliados, monitorados e, quando necessário, receber medidas de controle da mesma forma que outros riscos ocupacionais.
Esse processo, segundo o Sescon Campinas, dependerá de uma atuação integrada entre as áreas de contabilidade, Recursos Humanos, Saúde e Segurança do Trabalho e jurídico trabalhista, especialmente nas pequenas e médias empresas, que normalmente possuem estruturas mais enxutas e dependem de consultorias externas para atender às exigências regulatórias.
Para Claudia Di Fonzo, o momento é de preparação, ainda que a fiscalização esteja em caráter orientativo. “Embora a fiscalização esteja em fase educativa, este é o momento para que as empresas iniciem sua preparação. O contador precisa estar atualizado para ajudar os clientes a compreenderem os impactos regulatórios e direcioná-los às áreas técnicas responsáveis pela avaliação e gestão dos riscos psicossociais. Quanto mais cedo esse trabalho começar, mais estruturado será o processo de adequação”, destaca.
Com base em Campinas, o Sescon Campinas representa empresas de serviços contábeis e de assessoramento de 18 municípios da Região Metropolitana de Campinas e entorno. Além da atuação sindical, a entidade desenvolve ações de capacitação e orientação técnica para empresas e profissionais do setor, acompanhando mudanças na legislação que impactam o ambiente de negócios.
Foto: Presidente do Sescon Campinas, Claudia Di Fonzo.
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