
A relação entre tecnologia, inovação e desenvolvimento social ganhou espaço de destaque na programação do Campinas Innovation Week (CIW), realizado no Prédio do Relógio, em Campinas. A Fundação FEAC participou do evento com duas frentes voltadas à discussão sobre diversidade, inclusão produtiva e construção de soluções para os desafios dos territórios: a palestra da executiva, investidora e fundadora do Movimento Black Money, Nina Silva, e o painel que reuniu representantes da academia, sociedade civil e negócios de impacto, com participação da diretora executiva da Fundação FEAC, Andrea Apponi.
Com o tema “Tecnologia, Impacto Social e Negócios do Futuro: a Força da Diversidade na Economia”, Nina Silva apresentou uma reflexão sobre o papel da diversidade na construção de soluções de inovação capazes de responder a problemas complexos da sociedade. Executiva e investidora, ela foi reconhecida pela Forbes entre as 100 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo com menos de 40 anos. Sua relação com Campinas também foi destacada durante a apresentação. A especialista viveu por dois anos no bairro Cambuí, período em que liderou a área de tecnologia da Honda para a América do Sul.
Para Nina, o conceito de inovação passou por uma transformação. Em vez de estar concentrada exclusivamente na solução de problemas internos das empresas, a inovação precisa considerar as necessidades da maioria da população e buscar respostas para desafios complexos. Nesse contexto, a diversidade ganha relevância estratégica, ao ampliar os repertórios presentes nos processos de decisão.
Segundo a executiva, ambientes formados por pessoas com trajetórias semelhantes tendem a reproduzir perspectivas limitadas. A presença de diferentes experiências sociais, econômicas e culturais, por outro lado, contribui para a construção de soluções mais conectadas à realidade.
A discussão ganhou ainda mais relevância diante do avanço da inteligência artificial. Nina Silva destacou que a tecnologia trabalha a partir de dados e informações produzidos anteriormente e, por isso, não possui experiências humanas próprias. “A Nina é um ser com cicatriz. Vocês conhecem alguma IA com cicatriz?”, questionou. Na avaliação da especialista, a inteligência artificial depende dos dados fornecidos, dos critérios utilizados em sua configuração e dos valores de quem a desenvolve e utiliza.
Nesse cenário, a diversidade passa a ser também uma questão relacionada à própria qualidade das tecnologias desenvolvidas. Para Nina, cabe às pessoas utilizar a automação para liberar tempo e espaço para competências humanas como criatividade, sensibilidade e capacidade de compreender diferentes realidades.
A executiva também relacionou diversidade à economia. De acordo com os dados apresentados por ela, pessoas negras representam cerca de 52% dos empreendedores brasileiros, mas ainda enfrentam barreiras históricas para acessar crédito e recursos necessários à expansão de seus negócios. Nina apontou ainda impactos econômicos associados às desigualdades salariais e às dificuldades de acesso ao crédito enfrentadas por mulheres e empreendedores negros.
Na apresentação, dados atribuídos à McKinsey foram utilizados para demonstrar a relação entre diversidade e desempenho empresarial. Segundo os números citados, empresas com maior diversidade de gênero apresentam lucratividade 25% superior, enquanto, no recorte étnico-racial, o índice chega a 33%.
A especialista também apresentou o conceito de “inovabilidade”, aprofundado durante seus estudos na escola de negócios francesa INSEAD. A proposta, segundo Nina, amplia a compreensão tradicional de inovação ao estabelecer uma relação entre inovação, viabilidade financeira e impacto socioambiental efetivo. O resultado esperado é que novas soluções não sejam avaliadas apenas pela capacidade de gerar retorno econômico, mas também pelos efeitos concretos que produzem na sociedade.
Desigualdades territoriais entram no debate
A realidade de Campinas foi incorporada à discussão por Lina Pimentel, diretora socioeducativa da Fundação FEAC. Com base na experiência de mais de seis décadas da instituição na cidade, ela apresentou desafios relacionados à vulnerabilidade social e às desigualdades territoriais.
Segundo Lina, Campinas possui aproximadamente 1,3 milhão de habitantes, enquanto cerca de 300 mil pessoas em situação de maior vulnerabilidade estão inscritas no Cadastro Único (CadÚnico). Quase metade desse contingente é formada por pessoas negras. Para a diretora, a configuração demográfica e socioeconômica do município amplia a necessidade de compreender as desigualdades a partir de recortes territoriais e raciais.
Lina defendeu que o enfrentamento dessas diferenças não pode depender apenas de iniciativas isoladas. Para ela, o combate ao racismo precisa estar incorporado de maneira transversal às estratégias e projetos desenvolvidos por diferentes setores da sociedade. “O trabalho da Fundação FEAC cobre parte dessa realidade, mas não é suficiente, porque o esforço conjunto do ecossistema precisa ser muito maior”, afirmou a diretora, ao destacar a necessidade de articulação entre diferentes atores para enfrentar as desigualdades locais.
A discussão teve continuidade no painel “Do Conhecimento à Transformação: como Academia, Sociedade Civil e Negócios de Impacto podem construir soluções para os desafios dos territórios”, realizado no âmbito da Coalizão pelo Impacto Campinas e moderado pela conselheira Camila Brasil.
Inovação precisa estar conectada ao território
Durante o painel, Andrea Apponi, diretora executiva da Fundação FEAC, abordou a trajetória das pautas de Diversidade e Inclusão no ambiente corporativo. Segundo ela, essas discussões não tiveram origem nas empresas, mas foram construídas ao longo de décadas por universidades, movimentos sociais e associações comunitárias, muitas vezes como instrumentos de sobrevivência e emancipação econômica.
Andrea chamou atenção para o risco de a diversidade ser incorporada pelas organizações exclusivamente por sua relação com resultados financeiros, sem que isso seja acompanhado por uma efetiva democratização dos espaços de decisão.
Para a diretora, Campinas reúne condições particulares para transformar conhecimento e inovação em desenvolvimento social. A cidade concentra universidades, centros de pesquisa, empresas globais e profissionais qualificados, formando um ecossistema de inovação de relevância nacional. O desafio está em ampliar a conexão entre essa estrutura e a parcela da população que permanece distante das oportunidades geradas. “Campinas reúne talentos, universidades de excelência, centros de pesquisa e empresas globais, formando um dos ecossistemas de inovação mais relevantes do país. No entanto, essa força ainda convive com desigualdades persistentes. Há geração de empregos, há conhecimento e há potencial, mas a conexão entre essas oportunidades e quem mais precisa delas ainda é um desafio. O futuro da cidade passa por transformar essa potência em desenvolvimento mais inclusivo para todos”, destacou Andrea.
A participação da Fundação FEAC no Campinas Innovation Week reforçou, assim, uma discussão que ultrapassa os limites da tecnologia. A instituição levou ao evento a perspectiva de que inovação, negócios e inteligência artificial precisam estar associados à compreensão das desigualdades e à construção de oportunidades mais amplas nos territórios.
Independente e sediada em Campinas, a Fundação FEAC atua na redução das desigualdades e na promoção do desenvolvimento social. Após mais de seis décadas de atuação na Região Metropolitana de Campinas, a instituição concluiu, em 2025, sua transição de mantenedora para investidora social estratégica e articuladora sistêmica do ecossistema social.
A atuação atual está estruturada em três pilares: Acesso a Direitos Sociais, Inclusão Produtiva e Convivência Familiar e Comunitária Saudável. A Fundação apoia Organizações da Sociedade Civil (OSCs), participa da articulação de debates e iniciativas voltadas às políticas públicas e direciona investimentos para projetos de desenvolvimento social.
Em 2025, a instituição mobilizou mais de R$ 34 milhões em recursos próprios para projetos e iniciativas no município de Campinas, sem utilização de verbas públicas.
Foto: Lina Pimentel, da Fundação FEAC; Camila Brasil, conselheira da FEAC e professora da PUC-Campinas; e Nina Silva, do Movimento Black Money.
Crédito: Divulgação Fundação FEAC