
A lógica de buscar estágio no Brasil está passando por uma mudança significativa e tende a se consolidar até 2026. O modelo tradicional baseado no envio massivo de currículos genéricos em plataformas de recrutamento online deixou de ser apenas pouco eficiente e passou a se tornar um verdadeiro gargalo no processo de inserção profissional de estudantes.
A avaliação é do gestor de carreiras Virgilio Marques dos Santos, PhD pela Universidade Estadual de Campinas e sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, startup que integra o ecossistema de inovação da universidade.
Segundo o especialista, o cenário atual revela um paradoxo no mercado de trabalho. “Nunca foi tão simples se candidatar a uma vaga, mas nunca foi tão difícil ser notado. O estudante acha que está concorrendo com dezenas de pessoas, quando na verdade disputa atenção com milhares de currículos filtrados por sistemas automatizados. Muitas vezes o recrutador só vê aquilo que o algoritmo deixou passar”, afirma.
Currículos em massa criam falsa sensação de avanço
De acordo com Santos, insistir apenas na chamada “candidatura simplificada” cria uma sensação ilusória de produtividade na busca por oportunidades.
“Clicar em dezenas de vagas não é estratégia de carreira, é apenas ocupação de tempo. Os sistemas de recrutamento analisam palavras-chave e padrões. Se o candidato não leu a descrição da vaga com atenção e não adaptou o currículo, o filtro identifica isso antes mesmo de um humano analisar”, explica.
Nesse contexto, ele destaca que a candidatura online deve ser vista apenas como uma etapa formal do processo, e não como o principal caminho para conquistar uma vaga.
O processo real acontece fora das plataformas
Para o especialista, o diferencial competitivo está cada vez mais fora das plataformas de recrutamento.
“O jogo real acontece quando o estudante tenta entender o que aquela área ou equipe precisa resolver. Encontrar o gestor da área, conversar com profissionais da empresa e demonstrar interesse genuíno pelos desafios do negócio costuma ter muito mais impacto do que apenas enviar um currículo bem diagramado”, afirma.
Essa postura ativa, segundo ele, ajuda o candidato a demonstrar maturidade profissional e interesse real pela organização.
Portfólios práticos substituem discursos genéricos
Outra transformação importante é a perda de relevância das descrições tradicionais de perfil no currículo. Expressões como “proativo”, “dinâmico” ou “trabalho bem em equipe” deixaram de ter valor informacional relevante para recrutadores.
“A tendência é a substituição gradual dessas declarações por evidências concretas. Em 2026, o candidato precisa mostrar o que sabe fazer, e não apenas afirmar”, diz.
Na prática, isso significa desenvolver projetos próprios, mesmo antes da primeira experiência profissional. Estudantes da área de dados, por exemplo, podem analisar bases públicas e apresentar insights; candidatos ao marketing podem desenvolver estudos de caso com marcas reais; alunos de engenharia podem mapear processos e propor melhorias.
“Um link com um projeto concreto vale muito mais do que páginas de autodescrição. É evidência, não promessa”, resume.
Inteligência artificial como ferramenta — não substituta
O avanço da inteligência artificial também influencia a preparação de novos profissionais. Para Santos, o erro mais comum está nos extremos: ignorar a tecnologia ou depender totalmente dela.
“As empresas não procuram pessoas que desconhecem inteligência artificial, mas também não precisam de alguém que apenas replica respostas geradas por ferramentas. O diferencial está no profissional híbrido”, afirma.
Esse perfil combina uso estratégico da tecnologia com pensamento crítico, comunicação clara e capacidade de decisão.
Entrevista como conversa profissional
A mudança de postura também deve aparecer na etapa de entrevistas. Em vez de assumir uma posição passiva, aguardando perguntas do recrutador, o candidato deve participar da conversa de forma mais ativa.
“Quando o estudante pesquisa a empresa, entende o setor e faz perguntas bem estruturadas, ele deixa de parecer alguém que busca qualquer vaga. Passa a demonstrar que quer resolver problemas específicos”, explica.
Atitude estratégica pode definir o resultado
Na avaliação do especialista, conquistar um estágio nos próximos anos dependerá menos de histórico escolar isolado e mais da forma como o candidato se posiciona no mercado.
“Quem continua jogando na lógica da loteria — enviando currículos indiscriminadamente — tende a ficar invisível. Já quem aprende a se apresentar como alguém capaz de resolver problemas, mesmo antes de ser contratado, aumenta muito as chances de fechar contrato”, conclui.
Foto: Gestor de carreiras Virgilio Marques dos Santos.
Crédito: Divulgação.
