O estresse deixou de ser um problema pontual para se tornar uma condição permanente na rotina de milhões de trabalhadores brasileiros. Dados do relatório State of the Global Workplace 2026, elaborado pela Gallup com profissionais de mais de 160 países, revelam que 45% dos brasileiros afirmaram ter experimentado muito estresse no dia anterior à pesquisa. O índice supera a média global de 40% e coloca o Brasil acima da média da América Latina e Caribe, que registra 43%.

Os números mostram uma tendência preocupante. Desde 2010, quando o indicador começou a ser monitorado no país, os níveis de estresse vêm crescendo de forma praticamente contínua. O avanço se intensificou durante a pandemia e, mesmo com oscilações posteriores, permanece significativamente acima dos patamares observados há uma década, indicando que o ambiente corporativo brasileiro se tornou estruturalmente mais pressionado.
Para o psicanalista José Milton Castan Junior, especialista em saúde emocional de CEOs e executivos de alta liderança, o cenário reforça a relevância da recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor em 26 de maio e passou a exigir maior atenção das empresas aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. “A atualização da norma chega justamente para obrigar as organizações a tirarem do papel os planos de ação e promoverem mudanças significativas no ambiente laboral, especialmente na parte relacionada ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), agora com foco explícito nos chamados riscos psicossociais”, afirma.
Brasil acima da média regional
Na comparação com outros países da América Latina e Caribe, o Brasil aparece dois pontos percentuais acima da média regional. Ainda assim, a região ocupa a sexta posição entre as áreas mais estressadas do mundo, ficando à frente apenas da Europa (39%), Sul da Ásia (30%), Sudeste Asiático (25%) e Eurásia Pós-Soviética (21%).
O estudo também mostra que o impacto do estresse não é uniforme. Globalmente, mulheres relatam mais estresse diário do que homens, enquanto trabalhadores com menos de 35 anos aparecem entre os grupos mais vulneráveis.
Outro dado que chama atenção é o modelo de trabalho. Profissionais em regime híbrido apresentam índices de estresse superiores aos daqueles que atuam integralmente de forma presencial ou em campo. Mundialmente, 46% dos trabalhadores híbridos relataram níveis elevados de estresse. No Brasil, onde o modelo ganhou força após a pandemia, o resultado acende um alerta para gestores e profissionais de recursos humanos.
A pressão silenciosa da liderança
Entre os achados mais relevantes da pesquisa está a situação dos líderes e gestores. Segundo a Gallup, profissionais em cargos de liderança relatam mais estresse, tristeza e raiva do que os demais colaboradores. No cenário global, a diferença chega a sete pontos percentuais em relação aos profissionais sem função de gestão.
Para Castan, o tema ainda recebe pouca atenção nas discussões corporativas sobre saúde mental. “A maior parte das discussões sobre a NR-1 ainda está concentrada nos colaboradores operacionais e administrativos. Pouco se fala sobre um ponto igualmente sensível: a saúde mental da alta liderança. Executivos, CEOs e diretores também adoecem. E, em muitos casos, adoecem em silêncio”, observa.
Segundo ele, a rotina dos altos executivos costuma ser marcada por pressão constante, hiperconectividade, jornadas prolongadas, metas agressivas e pela chamada “solidão decisória”, fenômeno que descreve o isolamento frequentemente enfrentado por quem ocupa posições estratégicas. “Existe uma cultura corporativa ainda fortemente associada à ideia de que líderes precisam sustentar permanentemente uma imagem de controle, resistência e estabilidade. O resultado é que muitos profissionais seguem trabalhando mesmo em estado de fadiga psíquica, exaustão emocional e perda gradual da clareza decisória”, explica.
Desafio para as empresas
Especialistas apontam que a nova NR-1 pode representar um marco na forma como as organizações tratam a saúde mental no ambiente corporativo. Ao incluir os riscos psicossociais no escopo do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, a norma amplia a responsabilidade das empresas na identificação, prevenção e mitigação de fatores que afetam o bem-estar emocional dos trabalhadores.
Diante de um cenário em que quase metade da força de trabalho brasileira convive diariamente com elevados níveis de estresse, a gestão da saúde mental passa a ser não apenas uma questão de qualidade de vida, mas também um fator estratégico para produtividade, retenção de talentos e sustentabilidade dos negócios.
Foto: Psicanalista José Milton Castan Junior.
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