FATURAMENTO ALTO NÃO SIGNIFICA LUCRO: POR QUE GRANDES REDES DO VAREJO ENTRAM EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL?

FATURAMENTO ALTO NÃO SIGNIFICA LUCRO: POR QUE GRANDES REDES DO VAREJO ENTRAM EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL?

O elevado volume de vendas nem sempre é suficiente para garantir a saúde financeira de uma empresa. No varejo, onde as margens de lucro são tradicionalmente estreitas, aumentos de custos, juros elevados e redução do poder de compra dos consumidores podem transformar rapidamente uma operação de grande faturamento em um negócio altamente endividado.

O cenário ganhou novos capítulos recentemente com os pedidos de recuperação judicial da Casas Bahia, que busca reestruturar cerca de R$ 17 bilhões em dívidas, e da Marabraz, que possui um passivo estimado em R$ 140 milhões. No setor industrial, a Braskem também protocolou pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente R$ 56 bilhões em dívidas.

Esses casos se somam a outras grandes empresas que recorreram, nos últimos anos, a mecanismos de recuperação judicial ou extrajudicial, entre elas Tok&Stok, Grupo Pão de Açúcar, Grupo Dia e St. Marche.

Para Fabrício Tonegutti, especialista em direito tributário pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e diretor executivo da Mix Fiscal, o tamanho do faturamento não deve ser confundido com capacidade de geração de lucro. Segundo ele, o varejo trabalha com margens bastante reduzidas, o que deixa as empresas especialmente vulneráveis a qualquer elevação significativa de custos. “O faturamento alto não significa necessariamente lucro alto. O varejo trabalha com margens muito pequenas. Nos supermercados, por exemplo, a margem líquida média é de 2,9%. Em cada R$ 100 vendidos, sobram menos de R$ 3 depois do pagamento das despesas”, explica.

Nesse ambiente, despesas como energia elétrica, aluguel, salários, transporte e preços cobrados pelos fornecedores podem consumir rapidamente a margem das empresas. O problema se torna ainda mais complexo porque o varejista nem sempre consegue repassar integralmente os aumentos ao consumidor. “A empresa tenta repassar a alta, mas o varejista muitas vezes não criou esse aumento. Ele é apenas a última ponta da cadeia a dar a má notícia ao consumidor. E existe um limite: se repassar tudo, pode perder vendas. Se não repassar, perde margem”, afirma Tonegutti.

Juros pressionam empresas e consumidores

Na avaliação do especialista, o ambiente de juros elevados contribui para ampliar a pressão financeira sobre o varejo porque afeta simultaneamente as empresas e os consumidores.

Para as companhias, o crédito mais caro eleva as despesas relacionadas ao financiamento de estoques, capital de giro e dívidas contraídas anteriormente. Do lado do consumidor, o aumento do custo do crédito reduz a capacidade de assumir novas compras parceladas e compromissos financeiros. “Os juros altos apertam os dois lados do balcão. Para a empresa, fica mais caro financiar estoque, capital de giro e dívidas antigas. Para o consumidor, as prestações também ficam mais pesadas”, afirma.

Tonegutti cita ainda o nível de endividamento das famílias brasileiras como um fator adicional de pressão sobre o consumo. Segundo os dados mencionados pelo especialista, 82% das famílias possuem algum tipo de dívida, enquanto quase 30% têm contas atrasadas. “Isso não significa que todas estejam inadimplentes, mas mostra que boa parte da renda já está comprometida. Quase 30% têm contas atrasadas”, explica.

O resultado, segundo ele, é um cenário de pressão simultânea sobre custos e demanda. De um lado, empresas enfrentam despesas maiores e custo financeiro elevado. De outro, consumidores encontram limites para absorver novos aumentos de preços. “Forma-se, então, um cabo de guerra: de um lado, custos e juros empurrando os preços para cima; do outro, um consumidor dizendo que não consegue pagar mais. As empresas mais endividadas, com muitas lojas e custos fixos elevados, são as primeiras a perder o fôlego”, afirma.

Recuperação judicial não significa falência

A entrada de uma empresa em recuperação judicial costuma gerar preocupação entre consumidores, fornecedores e funcionários. Entretanto, o mecanismo não significa, necessariamente, que a companhia encerrou suas atividades ou que já esteja em situação de falência.

“Recuperação judicial não é falência. É uma tentativa de evitar a falência. A empresa procura a Justiça para negociar dívidas e continuar funcionando”, esclarece Tonegutti.

O especialista destaca que os processos podem ter desfechos diferentes. Algumas companhias conseguem reorganizar suas operações, renegociar compromissos financeiros e sair da recuperação, enquanto outras não conseguem superar a crise.

Casos como o do Grupo Dia, que fechou centenas de lojas, reorganizou sua operação e conseguiu encerrar a recuperação judicial, mostram que o processo pode fazer parte de uma estratégia de reestruturação. Em sentido contrário, a Livraria Cultura não conseguiu recuperar sua operação e encerrou as atividades. “Recuperação é uma oportunidade, não uma garantia”, resume.

Consumidor deve manter atenção

A recuperação judicial de uma grande rede também provoca dúvidas entre consumidores que possuem compras parceladas, carnês, produtos aguardando entrega ou processos de troca e garantia.

A orientação de Tonegutti é que o consumidor não interrompa pagamentos de forma unilateral por causa do pedido de recuperação judicial. Também é importante guardar documentos que comprovem a compra e acompanhar os prazos de entrega. “Para o consumidor, a orientação é simples: não deixe de pagar parcelas ou carnês por causa da recuperação judicial. Se o produto ainda não chegou, acompanhe o prazo e guarde nota fiscal, comprovantes e protocolos”, orienta.

Segundo ele, os direitos relacionados à entrega, troca e garantia permanecem válidos, embora a situação financeira da empresa possa exigir procedimentos específicos conforme o processo de recuperação.

Outro cuidado importante está relacionado a possíveis golpes. Empresas em recuperação judicial podem gerar dúvidas e insegurança entre consumidores, criando oportunidades para criminosos se passarem por representantes das companhias. “Qualquer pagamento ou renegociação deve ser feito somente pelos canais oficiais, porque momentos como esse também são utilizados para aplicar golpes”, alerta.

Pressão sobre um modelo de negócio de margens reduzidas

O movimento de grandes empresas em direção a processos de recuperação judicial e extrajudicial evidencia os desafios enfrentados por setores que dependem de grande volume de vendas para compensar margens relativamente pequenas.

No varejo, a equação financeira envolve uma combinação de fatores: capacidade de vender, controle de custos, gestão de estoques, capital de giro, custo do crédito, poder de negociação com fornecedores e capacidade do consumidor de absorver os preços.

Para Tonegutti, quando esses elementos se deterioram simultaneamente, empresas que possuem estruturas maiores, elevado número de lojas e custos fixos significativos podem enfrentar uma perda rápida de capacidade financeira.

Fabrício Tonegutti é diretor executivo da Mix Fiscal, empresa com 20 anos de experiência em inteligência tributária para o varejo, e especialista em direito tributário pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). O executivo já prestou consultoria e serviços para mais de 10 mil supermercados em todo o Brasil, com atuação voltada ao desenvolvimento de soluções para otimização de processos e aumento da lucratividade.

Foto: Fabrício Tonegutti, especialista em direito tributário pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e diretor executivo da Mix Fiscal.

Crédito: Divulgação.

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