ARTIGO DA DRª. MARIA KASSAB

Neste Julho Amarelo, sinto a responsabilidade de conversar diretamente com vocês sobre uma questão de saúde pública que, muitas vezes, avança de forma silenciosa: as hepatites virais. Acompanho de perto como a falta de informação pode levar a diagnósticos tardios. Por isso, esta campanha é tão vital. Ela reforça a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e, felizmente, do tratamento cada vez mais eficaz para essas doenças que afetam o fígado e podem levar a complicações graves como cirrose e câncer.
As hepatites virais são inflamações do fígado causadas por diferentes vírus, sendo os mais comuns os tipos A, B, C, D e E. Costumo dizer que cada um deles tem uma “personalidade” diferente: possuem formas distintas de transmissão, evolução e tratamento. Entender essas diferenças é o que nos dá o poder de nos proteger e de cuidar de quem amamos.
Para que tenhamos uma dimensão do desafio, os números falam por si. Segundo os dados mais recentes do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, o Brasil registrou mais de 700 mil casos de hepatites virais nas últimas duas décadas. A Hepatite C, a que tem maior potencial de complicações, com maior risco de cirrose hepática e hepatocarcinoma (câncer de fígado), ainda é uma realidade para centenas de milhares de brasileiros que não sabem que têm o vírus. Aqui em nossa região, a situação também exige atenção. Em Campinas, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, foram notificados dezenas de novos casos de hepatites B e C somente no último ano. Esses números, embora pareçam apenas estatísticas, representam vidas, famílias e histórias que podem ser transformadas pelo diagnóstico e tratamento corretos.
Mas como podemos nos proteger? Conhecer as vias de contágio é o primeiro passo. Eu sempre reforço:
Hepatites A e E: infecções do fígado transmitidas principalmente pela via fecal-oral, ou seja, pelo consumo de água ou alimentos contaminados. Medidas básicas de higiene, como lavar bem as mãos e os alimentos, e ter um bom saneamento básico são essenciais para a prevenção. Felizmente, para a Hepatite A, temos uma vacina eficaz e disponível no SUS para crianças e grupos de risco. Já a Hepatite E não é comum no Brasil, sendo mais prevalente em pacientes que viajaram para regiões onde o vírus é endêmico, como a Ásia e a África.
Hepatite B: a transmissão ocorre por relações sexuais desprotegidas e pelo contato com sangue contaminado (seringas, alicates de unha, lâminas). A transmissão de mãe para filho durante o parto também é uma via importante. A boa notícia é que a vacina contra a Hepatite B é a principal forma de prevenção, sendo gratuita e disponível para todas as idades. Além disso, o uso de preservativo é fundamental.
Hepatite C: Sua principal via de transmissão ainda é o contato com sangue contaminado, especialmente pelo compartilhamento de seringas. Pessoas que receberam transfusão de sangue antes de 1993 também devem investigar. Como ainda não temos uma vacina, a prevenção é crucial.
Hepatite D (Delta): Este tipo só afeta quem já tem o vírus da Hepatite B. Portanto, ao se vacinar contra a Hepatite B, você também se protege da Hepatite D.
Muitas vezes, como mencionei, as hepatites não dão sinais. Quando aparecem, os sintomas podem ser vagos: cansaço, febre, mal-estar, tontura, enjoo, dor abdominal, ou mais específicos como pele e olhos amarelados (icterícia), urina escura e fezes claras.
O diagnóstico é feito por um simples exame de sangue. E aqui vem a melhor parte da nossa conversa: os tratamentos evoluíram de uma forma emocionante. Se para as hepatites A e E o tratamento é de suporte, e para a B temos antivirais potentes que controlam a doença, para a Hepatite C vivemos uma verdadeira revolução. Hoje, com os antivirais de ação direta (DAAs), posso afirmar que o tratamento oferece mais de 95% de chance de cura em poucas semanas. É uma vitória da ciência que precisa chegar a todos.
Portanto, meu apelo neste Julho Amarelo é pessoal: não deixe a dúvida ou o medo vencer. Procure uma unidade de saúde, converse com um profissional, peça para fazer o teste. A prevenção é sempre o melhor caminho, mas para quem já convive com o vírus, o diagnóstico precoce e o tratamento mudam o rumo da história. Cuidar da saúde do seu fígado é um ato de autocuidado e de amor à vida.
Dra. Maria Kassab é infectologista do laboratório Franceschi
