PODEM ACREDITAR: NÃO EXISTE TRATAMENTO PRECOCE CONTRA A COVID-19

ARTIGO DO DR. RONALDO MACEDO

Nos últimos anos as redes sociais têm sido palco de uma guerra de informações, que em alguns casos serve como pura desinformação. No início se tratava sobretudo de política, mas a partir do início da pandemia de covid-19 se transformou em uma questão de saúde pública, que envolve a preservação da vida.

Por falta de conhecimento médico, má fé ou simples ingenuidade, muitas pessoas divulgaram ou compartilharam informações falsas a respeito das formas de contágio pelo coronavírus e posicionaram-se contra o isolamento social e até mesmo contra o uso de máscaras, o que certamente colaborou para aumentar o número de casos e de mortes. Depois, como se tivéssemos voltado a um passado distante, surgiram vozes contra o efeito das vacinas, um dos maiores avanços já conquistados pela medicina, responsável por evitar um número incontável de óbitos.

Para completar a ofensiva da desinformação, espalhou-se uma campanha a favor de tratamentos precoces ineficazes, às vezes até prejudiciais. No momento em que o mundo supera os 2 milhões de mortes por covid-19, das quais mais de 200 mil no Brasil, essa onda precisa ser interrompida. É preciso deixar claro que não há nenhuma evidência científica que comprova a eficácia de medicamentos como a cloroquina na prevenção da covid.

Podem acreditar: a única maneira conhecida até agora de evitar o coronavírus é o uso de máscara, a higienização constante das mãos e o distanciamento social. E o único tratamento farmacológico preventivo é a vacinação geral da população.

Não sou só eu, como pneumologista, quem digo isso. São os especialistas mais respeitados em todo o mundo, as associações médicas e as demais fontes verdadeiramente confiáveis. Em outubro, a Organização Mundial de Saúde divulgou o resultado do maior estudo já feito para testar os efeitos da cloroquina, da hidroxicloroquina, do coquetel antiviral remdesivir, lopinavir e ritonavir e do interferon. “Nenhuma das drogas estudadas reduziu a mortalidade em nenhum subgrupo de pacientes nem teve efeitos na iniciação da respiração artificial ou na duração da internação hospitalar”, concluiu o ensaio, que analisou a evolução de mais de 11 mil doentes em 400 hospitais de 32 países (e pode ser conferido na íntegra em https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.10.15.20209817v1).

No 17 de janeiro, ao aprovar o uso emergencial das vacinas Coronavac e Oxford/AstraZeneca, os diretores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aproveitaram a repercussão do anúncio para deixar clara a ineficácia de fármacos como a cloroquina. A diretora Meiruze Sousa Freitas, que é formada em farmácia com habilitação em análises clínicas pela Universidade Federal de Minas Gerais, afirmou sem meias palavras: “Até o momento não contamos com alternativa terapêutica aprovada e disponível para prevenir ou tratar a doença causada pelo novo coronavírus”.

Antônio Barras Torres, diretor-presidente da Anvisa, que é médico e oficial da Marinha, tendo chegado ao posto de contra-almirante, comemorou o início da vacinação, mas ressalvou: “Entretanto, que esse modesto júbilo não seja motivo de relaxamento para as medidas de proteção individual (…) Mesmo vacinado, use máscara, mantenha o distanciamento social e higienize as mãos”.

Note-se que esses alertas partiram de diretores da Anvisa nomeados pelo atual presidente da República, portanto, sem relação com nenhum tipo de movimento dispostos a desacreditar o governo. São, simplesmente, uma demonstração de bom senso e da crença na ciência e na medicina.

Também em 17 de janeiro, no mesmo dia em que a Anvisa aprovou as duas primeiras vacinas para uso no Brasil, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), que reúne os especialistas em saúde respiratória do país, lançou um manifesto para ressaltar a ineficácia dos tratamentos precoces contra a covid-19. Sob o impacto do colapso do sistema de saúde em Manaus e com base em inúmeros estudos, a SBPT se concentrou na avaliação dos fármacos cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, nitazoxanide, corticoides e anticoagulantes.

A conclusão da SBPT (veja a íntegra em https://sbpt.org.br/portal/wp-content/uploads/2021/01/Posicionamento-SBPT-tratamento-precoce-COVID19-17-01-2021-1.pdf) foi a mesma do estudo da OMS: “Alertamos que até o presente momento não existe tratamento farmacológico precoce da covid-19 com eficácia e segurança comprovadas. Neste momento, toda a sociedade deve se voltar à prevenção da covid-19 por meio das medidas recomendadas, que incluem usar máscaras, higienizar as mãos e manter distanciamento social enquanto aguarda o único tratamento farmacológico preventivo, representado por vacinas seguras e asseguradas a todos”.

Precisamos dar um basta ao negacionismo e acreditar na ciência. É obrigação de todos nós parar de disseminar e compartilhar informações falsas e entender que estamos vivendo uma crise sanitária sem precedentes, que está mudando o mundo. Não se pode brincar com vidas humanas.

 

Ronaldo Macedo é pneumologista formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, tendo participado como Observer Fellow no Serviço de Transplante Pulmonar no Toronto General Hospital, no Canadá. Trabalha há quase 10 anos no Hospital de Clínicas da Unicamp, onde é coordenador do Ambulatório de Doenças Pulmonares Difusas/Intersticiais (ambulatório de referência na Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia), e no Hospital Vera Cruz/Campinas. É também professor da disciplina de Emergências Respiratórias na pós-graduação de Medicina de Emergência do Instituto Terzius.

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