De 2.300 startups avaliadas pela Start Growth em um ano, apenas cinco receberam aporte; capacidade de execução, receita, retenção de clientes e escalabilidade passam a ser determinantes

O mercado de venture capital está mais seletivo. Uma boa ideia continua sendo importante para uma startup, mas deixou de ser suficiente para garantir acesso a capital. Um levantamento da Start Growth mostra a dimensão desse movimento: das cerca de 2.300 startups avaliadas pela empresa ao longo de um ano, apenas cinco receberam investimento — menos de 0,3% do total.
O cenário reflete uma mudança no comportamento de aceleradoras e investidores, especialmente no segmento de startups B2B SaaS. Além da inovação, passaram a ganhar peso fatores como capacidade de execução, validação do produto, geração de receita, retenção de clientes, eficiência comercial, governança e potencial de escala.
A tendência também é observada no mercado internacional. Aceleradoras como Techstars e Y Combinator têm reforçado a importância de indicadores que demonstrem a capacidade das startups de transformar uma solução em um negócio consistente e sustentável.
Para Marilucia Pertile, CEO e cofundadora da Start Growth, a percepção de que investidores buscam exclusivamente ideias inovadoras não corresponde mais à realidade do mercado. “Existe uma percepção equivocada de que o investidor procura apenas uma ideia inovadora. A inovação continua sendo importante, mas ela é apenas o ponto de partida”, afirma.
Segundo a executiva, as próprias conversas entre empreendedores e investidores mudaram de perfil. Métricas relacionadas à receita recorrente, retenção de clientes, eficiência comercial, governança e estratégia de crescimento passaram a ocupar espaço central nas análises. “Durante muitos anos existiu uma corrida pelo crescimento a qualquer custo. Hoje percebemos que empresas sustentáveis, que conhecem profundamente seus clientes e constroem uma operação eficiente, despertam muito mais interesse dos investidores. O capital continua disponível, mas ele está sendo direcionado para negócios que demonstram capacidade de execução”, explica.
Execução como diferencial
Entre os fatores que mais influenciam uma decisão de investimento estão a qualidade da equipe fundadora, o tamanho do mercado, a validação da solução junto aos clientes, o modelo de receita recorrente e a capacidade de transformar estratégia em crescimento.
Nesse contexto, a tecnologia continua sendo um diferencial competitivo, mas deixou de ser suficiente para destacar uma empresa diante de investidores mais criteriosos. A capacidade de transformar tecnologia em resultado passou a ser um dos principais elementos de avaliação.
Os resultados podem ser observados em empresas que passaram pela aceleração da Start Growth. A Pontomais, por exemplo, foi acompanhada desde sua fase inicial. A empresa chegou a mais de 21 mil clientes, estruturou uma rede de aproximadamente 1.200 representantes comerciais e ampliou sua equipe para cerca de 300 colaboradores antes de ser adquirida pela VR Benefícios.
Outro exemplo é a vhsys. Com apoio da Start Growth, a empresa apresentou crescimento quatro vezes superior ao inicialmente projetado em dois anos, trajetória que posteriormente culminou em sua aquisição pela Stone.
O portfólio da aceleradora inclui ainda a SmartSave, fintech voltada à automação de reservas financeiras, e a Leads2b, plataforma B2B que recebeu suporte para estruturar sua operação comercial e ampliar sua presença no mercado.
Mercado em amadurecimento
Na avaliação de Marilucia, o aumento da seletividade representa um amadurecimento tanto do ecossistema de inovação quanto do próprio mercado de venture capital. “O empreendedor que entender profundamente seu cliente, acompanhar seus indicadores, desenvolver uma operação comercial eficiente e construir uma cultura forte continuará encontrando investidores interessados. A boa ideia abre a porta, mas é a execução que determina quem permanece no jogo”, afirma.
Com sede em Curitiba (PR), a Start Growth atua desde 2014 como aceleradora, investidora e parceira estratégica de startups de tecnologia, com foco em SaaS B2B e negócios escaláveis.
A empresa combina capital, inteligência de mercado, marketing, vendas e governança para apoiar o crescimento das empresas. Por meio da Start Growth Academy, oferece programas voltados ao desenvolvimento e à estruturação comercial de empreendedores, enquanto sua área de investimentos realiza aportes diretos e por meio de parceiros e fundos de mercado, principalmente em empresas em estágio inicial.
A estratégia da companhia é baseada no conceito de Smart Capital, que combina recursos financeiros com conhecimento, especialistas, mentores e investidores. A proposta é participar não apenas do financiamento, mas também da construção das estratégias de mercado e da expansão das empresas.
Para a Start Growth, a nova dinâmica do venture capital não significa o fim das oportunidades para startups, mas uma mudança no que o mercado espera dos empreendedores. Em um ambiente de maior rigor na seleção, inovação continua abrindo portas, mas são os resultados, a consistência do negócio e a capacidade de execução que podem determinar a chegada e a permanência do capital.
Foto: Marilucia Pertile, CEO e cofundadora da Start Growth.
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