
A construção civil paulista inicia uma nova etapa na modernização das relações de trabalho com a criação das Trilhas Profissionais da Construção, programa que estabelece um modelo padronizado de desenvolvimento de carreira para trabalhadores do setor, independentemente da empresa em que estejam empregados. O lançamento acontece no dia 2 de setembro, no Salão Nobre da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital paulista.
A iniciativa foi desenvolvida em conjunto pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), Fiesp, Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai-SP), Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo (Sintracon-SP) e Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário do Estado de São Paulo (Feticom).
O programa busca enfrentar um dos principais gargalos do setor: a escassez de mão de obra qualificada. Apesar de a construção civil oferecer salários competitivos já na entrada do mercado formal — a remuneração média é de aproximadamente R$ 2,4 mil —, a ausência de uma trajetória profissional claramente definida dificulta a atração e a retenção de trabalhadores. Em São Paulo, profissionais que chegam à função de mestre de obras podem alcançar remunerações entre R$ 15 mil e R$ 20 mil, além dos direitos sociais previstos na legislação.
Carreira estruturada

As Trilhas Profissionais organizam as atividades em sete linhas de atuação técnica e sete níveis de evolução profissional. Para cada etapa, serão estabelecidos critérios objetivos de qualificação, experiência e certificação, permitindo que o trabalhador tenha maior clareza sobre os requisitos necessários para avançar na carreira.
Atualmente, diferentes empresas adotam cargos, nomenclaturas e critérios próprios para funções semelhantes. Essa falta de padronização pode dificultar o reconhecimento das competências, a mobilidade entre empresas e o planejamento da formação profissional.
Com o novo modelo, o trabalhador passa a contar com uma trajetória estruturada de crescimento, vinculada à experiência acumulada, à qualificação e às certificações obtidas. Para as empresas, a expectativa é de que a padronização contribua para melhorar a gestão de pessoas, a produtividade e a retenção de profissionais.
Outra mudança prevista é a atualização das nomenclaturas tradicionalmente utilizadas no setor. Termos como “servente” e “pedreiro” deverão ser substituídos por denominações relacionadas às competências profissionais, como Assistente de Produção e Oficial de Produção. O SindusCon-SP também pretende atuar junto ao Ministério do Trabalho para atualizar essas nomenclaturas na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO).
Qualificação dentro dos canteiros

As construtoras participantes serão responsáveis pelo investimento na formação dos trabalhadores, utilizando a estrutura educacional do Senai-SP. A instituição desenvolveu cursos específicos e critérios de certificação para as sete linhas de atuação técnica contempladas pelo programa.
A formação poderá ocorrer preferencialmente nos próprios canteiros de obras, com a destinação de duas horas semanais da jornada de trabalho para as aulas. Também haverá possibilidade de realização dos cursos nas unidades do Senai-SP, com duração definida conforme cada formação.
Entre as áreas contempladas estão funções como instalador de formas, instalador de sistemas de ar, impermeabilizador, instalador eletricista, instalador armador e instalador hidráulico.
Para Marcio Benvenutti, diretor da Regional Campinas do SindusCon-SP, a iniciativa representa uma nova fase na qualificação e na organização das profissões da construção. “Algumas das profissões terão novas nomenclaturas, como instalador de formas, instalador de sistema de ar, impermeabilizador, instalador eletricista, instalador armador e instalador hidráulico, através de parceria com o Senai. Com isso, nossos colaboradores, com certeza, terão maior desenvolvimento em suas carreiras e o setor maior produtividade”, declarou.
Projeto-piloto terá 30 empresas
A implantação começará por meio de um projeto-piloto de 12 meses. Participarão voluntariamente dez construtoras, cada uma vinculada a duas empreiteiras, totalizando 30 empresas.
Após a avaliação dos resultados e a validação do modelo, a proposta é incorporar as Trilhas Profissionais às convenções coletivas do Estado de São Paulo. Em uma segunda etapa, o programa poderá ser levado a outros estados brasileiros, em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), por meio da Comissão de Política de Relações Trabalhistas (CPRT).
Segundo Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP, o programa pretende mudar a percepção sobre as oportunidades profissionais existentes na construção civil.
“Pela primeira vez, com as Trilhas Profissionais da Construção, o profissional terá clareza sobre como ingressar, se qualificar e evoluir ao longo da carreira.”
A estratégia também mira públicos que podem ampliar a força de trabalho do setor, como jovens da geração Z, mulheres, migrantes e trabalhadores atualmente na informalidade.
Menos rotatividade e mais produtividade
Para Newton José Soares Cavalieri, diretor titular do Departamento da Indústria da Construção e Mineração (Deconcic/Fiesp), a iniciativa chega em um momento de elevada rotatividade no setor. Segundo ele, a construção civil apresenta a maior taxa de rotatividade entre os grandes segmentos da economia, enquanto mais da metade dos trabalhadores formais permanece por até um ano no emprego.
A avaliação é que uma carreira estruturada pode estimular a permanência dos profissionais e criar um processo contínuo de aprendizado e acúmulo de experiência.
A diretora de unidade do Senai-SP, Camila Pimenta, também destaca o papel da formação profissional para tornar mais visíveis as possibilidades de crescimento dentro da construção.
De acordo com ela, a proposta permite que o trabalhador amplie gradualmente suas responsabilidades e competências, ao mesmo tempo em que contribui para atualizar a percepção sobre as profissões do setor.
Qualificação como base para industrialização
Além de melhorar a gestão de pessoas, as entidades envolvidas avaliam que a qualificação profissional poderá contribuir para acelerar processos de mecanização e industrialização dos canteiros.
Para David Fratel, presidente da CPRT da CBIC e diretor de Gente do SindusCon-SP, a expansão nacional das Trilhas Profissionais poderá representar uma transformação estrutural no setor.
A expectativa é de que trabalhadores mais qualificados estejam preparados para operar novas tecnologias, acompanhar a industrialização dos processos construtivos e contribuir para ganhos de produtividade.
Com a implantação do projeto-piloto em São Paulo, a construção civil busca, assim, enfrentar simultaneamente dois desafios: tornar suas carreiras mais atrativas e previsíveis e elevar a qualificação necessária para uma atividade cada vez mais tecnológica e industrializada.
Foto 1 – Marcio Benvenutti, diretor da Regional Campinas do SindusCon-SP e Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP.
Crédito: Roncon & Graça Comunicações
Fotos 2 e 3 – Trabalhadores da construção civil.
Crédito: SindusCon-SP.