
O ambiente de negócios em Campinas vive um momento de forte expansão. Dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico mostram que 4.876 empresas foram abertas entre janeiro e março de 2026, o melhor primeiro trimestre desde a pandemia. O número supera, sozinho, a soma das aberturas registradas nos primeiros trimestres de 2021, 2022, 2023 e 2024.
O movimento acompanha uma tendência regional. Segundo a Fundação Seade, a Região Administrativa de Campinas encerrou 2025 com 74.715 novas empresas e 141.277 microempreendedores individuais (MEIs), consolidando-se como a segunda região com maior volume de novos negócios do Estado de São Paulo.
Mas, para muitos empreendedores que ingressaram recentemente no mercado, o cenário de crescimento passa a conviver com desafios importantes. O principal deles é o aumento dos custos operacionais, especialmente da energia elétrica.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) aprovou em abril o reajuste anual das tarifas da CPFL Paulista, distribuidora que atende Campinas e outros 233 municípios da região. Os novos valores começaram a ser aplicados nas contas emitidas a partir de maio, conforme o ciclo de leitura de cada consumidor.
Para pequenos comércios e prestadores de serviço, a tarifa subiu 9,25%. Já para indústrias e empresas de maior porte, o reajuste alcançou 18,75%. Os consumidores residenciais tiveram aumento médio de 9,15%.
Na prática, uma conta de consumo de 1.000 kWh passou de R$ 287,38 para R$ 359,23, uma diferença de quase R$ 72 mensais. O aumento chama atenção porque ocorre um ano após uma redução tarifária de 3,66%, registrada em 2025.
Pressão vem de várias frentes
A energia não é o único fator que pesa sobre as empresas em 2026. Também voltou a valer integralmente a cobrança patronal do INSS sobre a folha de pagamento, após anos de desoneração para determinados setores.
Além disso, o novo salário mínimo de R$ 1.621 elevou automaticamente encargos trabalhistas como FGTS, férias e décimo terceiro salário. O crédito continua caro, com projeção da Associação Comercial e Industrial de Campinas (ACIC), baseada em estudos do Sebrae-SP, de que a taxa Selic encerre o ano em 12,5%.
O impacto ocorre em um momento delicado para o fluxo de caixa das pequenas e médias empresas. Levantamento realizado pelo Sebrae em parceria com a Confederação Nacional do Comércio (CNC) aponta que 41% dos negócios iniciaram o primeiro trimestre com caixa negativo. O estudo também revela que sete em cada dez empresas não possuem reserva financeira suficiente para sustentar três meses de despesas fixas.
Segundo dados compilados pela ACIC, os setores de comércio, construção civil e indústria já apresentam sinais de desaceleração desde o segundo semestre de 2025.
Entender a conta de luz é o primeiro passo
A CPFL Paulista, pertencente ao grupo CPFL Energia e controlada pela chinesa State Grid, atende atualmente cerca de 5,12 milhões de clientes. De acordo com a ANEEL, a maior parte do reajuste está relacionada a custos externos à distribuidora, como encargos setoriais, contratos de transmissão e compra de energia.
Para Renata Feijó, fundadora da empresa Liora Energia, o impacto financeiro da conta de luz é ampliado pelo desconhecimento dos consumidores sobre a composição tarifária. “Energia é um custo essencial, está presente o tempo inteiro no dia a dia, mas é pouco conhecido. Só para ter referência, 55% do valor da conta de luz é de fato energia. O restante é imposto, encargo, iluminação pública e outros itens”, afirma.
Segundo ela, os contratos de fornecimento das distribuidoras costumam ser reajustados anualmente com base em índices como IPCA ou IGP-M, que historicamente apresentam variações significativas. “É um cliente que ano após ano vê aumentos expressivos, e isso tem impacto direto na economia, na qualidade de vida e na operação das empresas. O ponto é que existem alternativas, e a primeira delas é entender que elas existem”, diz.
Mercado livre abre novas possibilidades
Entre as alternativas apontadas pelo setor está a geração distribuída por meio de usinas solares, que permite o compartilhamento de créditos de energia entre diferentes consumidores. “A gente entendeu que dá para usar um modelo de geração distribuída, que é basicamente uma usina solar, e distribuir esse crédito para os nossos clientes. Mas mais do que isso, a gente quer aumentar o potencial de compra desse cliente. Então a gente dá o desconto na conta e ele pode usar esse desconto para financiar outros benefícios que queira, como um crédito mais barato”, explica Renata.
A expectativa do mercado está voltada para uma mudança regulatória prevista para entrar em vigor em 1º de agosto de 2026. Com base na Medida Provisória 1.300/2025, pequenos comércios, prestadores de serviços e indústrias poderão escolher de qual fornecedor comprar energia elétrica, deixando de depender exclusivamente da distribuidora local.
A medida amplia o acesso ao chamado mercado livre de energia, atualmente restrito a perfis específicos de consumidores, e pode representar uma oportunidade para redução de custos em um momento de maior pressão sobre as despesas empresariais.
Enquanto isso, o próximo reajuste tarifário da CPFL Paulista está previsto para abril de 2027. Até lá, empresários da região terão de equilibrar crescimento e expansão com uma realidade marcada pelo aumento dos custos operacionais e pela necessidade de maior eficiência na gestão financeira.
Foto: Renata Feijó, cofundadora da Liora Energia.
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