
O Brasil deu um passo importante para fortalecer sua posição na cadeia global de desenvolvimento farmacêutico. Com a certificação de Boas Práticas de Laboratório (BPL), acreditada pelo INMETRO, a empresa Crop Labs tornou-se um dos poucos laboratórios brasileiros habilitados a realizar testes pré-clínicos in vitro de medicamentos com reconhecimento internacional nos países signatários da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
A conquista permite que estudos conduzidos no país sejam aceitos por 38 nações integrantes da organização, ampliando a competitividade da indústria nacional, reduzindo a dependência de laboratórios estrangeiros e acelerando etapas estratégicas do desenvolvimento de novos medicamentos.
Segundo Aruã Prudenciatti, cofundador e diretor de operações da Crop Labs, a certificação representa uma mudança significativa para o setor. “Os dados gerados aqui passam a ter validade internacional, o que muda a lógica de onde e como esses estudos são conduzidos. Na prática, empresas regionais podem ter amplitude de comercialização global”, afirma.
O reconhecimento ocorre em uma etapa considerada decisiva no desenvolvimento de medicamentos, um processo que exige altos investimentos e apresenta elevado grau de risco. De acordo com Prudenciatti, os custos podem chegar a US$ 2 bilhões por produto, considerando desde a pesquisa básica até a chegada ao mercado.
Nesse contexto, os testes pré-clínicos desempenham papel fundamental. Cerca de 70% dos candidatos a medicamentos são interrompidos ao longo do desenvolvimento, principalmente por apresentarem baixa eficácia ou problemas de segurança. “Os ensaios existem justamente para identificar, o mais cedo possível, quais produtos não têm potencial de seguir adiante. Interromper um projeto nessa fase evita que bilhões continuem sendo investidos em algo que não vai chegar ao paciente”, explica.
Testes com células humanas ganham protagonismo
Os ensaios in vitro são realizados com células humanas cultivadas em laboratório, em ambientes controlados que simulam condições do organismo. A metodologia permite avaliar a segurança, eficácia e os mecanismos de ação dos produtos antes de etapas mais avançadas de pesquisa. “Quando usamos células humanas, conseguimos reproduzir com mais fidelidade a interação do produto com o organismo. Isso aumenta a confiabilidade dos resultados e reduz riscos nas etapas seguintes”, destaca o executivo.
Além da maior previsibilidade científica, os testes in vitro ganham relevância diante das restrições ao uso de animais em pesquisas, especialmente nos setores de cosméticos e produtos de limpeza, e do avanço de métodos alternativos reconhecidos internacionalmente.
Crescimento da demanda
Em 2025, a Crop Labs realizou aproximadamente 550 estudos voltados à comprovação de segurança e eficácia de medicamentos, terapias avançadas, cosméticos e desinfetantes. Para 2026, a expectativa é alcançar cerca de 800 estudos, impulsionada pelo reconhecimento internacional e pelo aumento da procura por testes com aceitação global.
A empresa já atende clientes de outros países da América Latina, como México e Colômbia, que buscam validação internacional para seus produtos. “Existe uma demanda crescente, inclusive de fora do Brasil, por testes que tenham aceitação global. Já atendemos empresas de países como México e Colômbia, que buscam essa validação para seus produtos”, afirma Prudenciatti.
Os estudos realizados pela empresa possuem duração média entre 60 e 90 dias e abrangem desde análises iniciais em células até avaliações mais complexas relacionadas ao desenvolvimento de novos tratamentos.
Redução de custos e ganho de eficiência
A possibilidade de conduzir testes no Brasil também traz vantagens econômicas e operacionais para empresas do setor farmacêutico e biotecnológico.
De acordo com a Crop Labs, a realização local dos estudos elimina custos logísticos internacionais, reduz a exposição às oscilações cambiais e simplifica processos burocráticos. Como resultado, o desenvolvimento de novos produtos torna-se mais eficiente e potencialmente mais rápido. “A proximidade entre as equipes e a redução de barreiras operacionais permitem decisões mais rápidas ao longo do processo. Isso encurta o tempo de desenvolvimento e pode antecipar a chegada de novas soluções ao mercado”, afirma o executivo.
Brasil amplia protagonismo na inovação farmacêutica
A certificação também fortalece a infraestrutura nacional voltada às etapas críticas da pesquisa farmacêutica. Atualmente, a maior demanda está concentrada em medicamentos inovadores, terapias avançadas e produtos biológicos, segmentos impulsionados pelo crescimento da biotecnologia e pela busca por tratamentos cada vez mais personalizados.
Mais do que validar produtos, os testes pré-clínicos funcionam como instrumentos de tomada de decisão para a indústria, ajudando a definir quais projetos merecem seguir para as fases seguintes de desenvolvimento. “A maior parte dos estudos está ligada a decisões de desenvolvimento. Identificar que um produto não funciona ou não é seguro faz parte do processo científico e evita que ele avance para etapas mais complexas”, ressalta Prudenciatti.
Para o executivo, a capacidade de testar, validar e interromper projetos com precisão tornou-se um dos ativos mais valiosos da indústria farmacêutica mundial. Com a certificação internacional da Crop Labs, essa competência passa a ganhar escala também no Brasil, ampliando o potencial do país como polo de inovação e desenvolvimento de novas terapias para o mercado global.
Foto: Aruã Prudenciatti, cofundador e diretor de operações da Crop Labs.
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