
Em uma época marcada pela velocidade das compras digitais e pelas relações cada vez mais impessoais, um lugar em Campinas segue preservando uma tradição que atravessa gerações: conhecer os clientes pelo nome, compartilhar receitas, indicar os melhores ingredientes para o almoço de domingo e transformar cada compra em uma conversa. Nesta quinta-feira, 21 de maio, o Mercado Campineiro, carinhosamente conhecido como Mercadinho da Barão, celebrou 70 anos de história mantendo viva essa essência.
Muito mais do que um centro de compras, o Mercado tornou-se um dos espaços mais emblemáticos da cidade, reunindo memórias, tradições familiares e relações construídas ao longo de décadas. Entre aromas de temperos, bancas tradicionais e comerciantes que acompanham a vida de seus clientes há anos, o local permanece como um dos retratos mais autênticos da Campinas afetiva e acolhedora.
A história do Mercado Campineiro também está ligada à própria formação da cidade. O terreno onde o espaço está instalado foi doado pela família da Baronesa Geraldo de Rezende à Santa Casa de Misericórdia de Campinas, que passou a administrar a área como fonte de renda. Uma cláusula histórica estabeleceu que o imóvel não poderia ser vendido durante 99 anos, garantindo a preservação de sua função comunitária e fortalecendo seu vínculo com o comércio popular e a convivência cotidiana. “Quando falamos do Mercado Campineiro, falamos de pertencimento. Muitas pessoas cresceram aqui dentro, trabalharam aqui a vida toda e construíram relações verdadeiras. O Mercado faz parte da memória afetiva de Campinas”, afirma Carmen Sílvia Galvão, presidente da Associação dos Comerciantes do Mercado Campineiro e proprietária do Pet do Mercado há 27 anos.
Atualmente, o Mercadinho da Barão reúne cerca de 45 comerciantes de diferentes segmentos. Entre eles estão açougues, peixaria, hortifrutis, empórios, mercearias, restaurantes, pastelaria, bomboniere e boxes de variedades que ajudam a construir diariamente a identidade plural e acolhedora do espaço.
Além da forte tradição gastronômica, o Mercado abriga estabelecimentos conhecidos pelos frequentadores, como Aquário Excelsior, Kimera Modas, Audiup Aparelhos Auditivos, Casa das Velas, BR Limp, Pet do Mercado, Rubens Celular, Tabacaria Castro Campinas e Variedades Presente. A diversidade de produtos e serviços mantém viva a experiência de encontrar “de tudo um pouco” em um único local, com atendimento próximo e personalizado.
Histórias que atravessam gerações
Cada corredor do Mercado Campineiro guarda histórias que ajudam a explicar sua longevidade.
Na Peixaria Zamaia, Dona Laurinda Thomaz atende clientes há 30 anos, compartilhando dicas sobre peixes, cortes e receitas com a mesma atenção dedicada a amigos e familiares.
Na tradicional Banca da Guiomar, considerada a mercearia mais antiga do Mercado, Dona Guiomar Aparecida administra há 42 anos um comércio reconhecido pela ampla variedade de ervas, chás, temperos e bacalhau. Hoje, acompanha a continuidade do legado familiar por meio da filha Gabriela Ferrari, responsável pelo Jardim Gastronômico Bistrô.
Outro personagem conhecido é Cláudio Roberto Attílio, o Claudinho, da Mercearia Atenas. Há 37 anos, ele mantém uma clientela fiel graças à variedade de carnes para feijoada e ao atendimento marcado por conversas e orientações no balcão.
No hortifrúti Maria Frutas, Dona Maria e a filha Lia dividem o atendimento há aproximadamente 60 anos, conhecendo de perto os hábitos e as preferências de muitos clientes na escolha de frutas e verduras.
Já o Aquário Excelsior, considerado o box mais antigo do Mercado, preserva até hoje seus tradicionais azulejos azuis e aquários embutidos nas paredes. O espaço é atualmente administrado pelos filhos do fundador, Luiz e Elisabete Kuno, mantendo viva uma das marcas históricas do local.
Curiosidades e memórias afetivas
Ao longo de suas sete décadas, o Mercado Campineiro também acumulou curiosidades que fazem parte da memória coletiva dos campineiros. Uma das mais lembradas é a gravação de cenas da série televisiva Sandy & Junior em um dos boxes do Mercado durante os anos 1990.
Entre os frequentadores fiéis está Elisa Krempel, de 73 anos, cliente desde 1983. Para ela, o Mercado representa muito mais do que um espaço comercial. “Eu venho ao Mercado há muitos anos e aqui a gente se sente em casa. Não é só um lugar de compras. As pessoas conversam, perguntam como você está, conhecem a gente de verdade”, relata.
Celebração especial dos 70 anos
Mais do que celebrar um aniversário, os 70 anos do Mercado Campineiro representam a permanência de uma Campinas construída sobre vínculos, histórias e convivência. Em tempos de transformações aceleradas, o Mercadinho da Barão continua demonstrando que alguns lugares não comercializam apenas produtos: preservam memórias, fortalecem relações e mantêm vivo o sentimento de pertencimento de uma comunidade inteira.
Foto: Presidente da Associação dos Comerciantes do Mercado Campineiro, Carmen Sílvia Galvão.
Crédito: Antonio Carlos Coelho.