ESG E A ONDA ROSA

COLUNA DO JORNALISTA NELSON TUCCI

Empresa nenhuma tem obrigação de se modernizar. Pode bater o pé em modelos vetustos e manter a sua distinta freguesia – muitas vezes herdadas do pai ou avô que começaram o negócio – ou, no caso daquelas mais jovens (de fundação, não necessariamente de mentalidade), manter os seus ritos cartesianos para engordar o lucro e deixar o “resto” pra depois.

Na outra ponta (do consumo) estão os clientes, que por sua vez também não têm obrigação de consumir produtos / serviços dessas que pararam no tempo e vão perdendo fatias de mercado, às vezes até de maneira pouco perceptível. Conceitos de branding (gestão de marca) e reputação (que sempre existiu, mas nem sempre foi levada a sério) hoje fazem parte, obrigatoriamente, da moderna gestão.

E tanto faz se a empresa está em Campinas, Hortolândia, Shenzhen, Frankfurt ou Milão. Os conceitos da nova gestão se atualizaram e propagaram na velocidade de nosso tempo. Assim, tratar de ESG (sigla, em inglês, environmental, social and governance para práticas ambientais, sociais e de governança) não é obrigação para quem dança ao som de “Deixa a Vida Me Levar” e ignora a perenidade.

Cuidar dos três pilares do ESG é um antídoto contra a ferrugem das engrenagens corporativas (incluso o capital intelectual). Nesta última quinta-feira, 20, por exemplo, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que fiscaliza o mercado de capitais no país, aprovou o anexo enviado pela B3 (Bolsa de Valores do Brasil) propondo estimular a diversidade de gênero e de grupos sub-representados em cargos de alta liderança. Cabe destacar que nesse caso a jurisdição fica em cima das companhias abertas (que negociam valores mobiliários, como ações e títulos de dívida). Quem não o fizer terá de se explicar aos órgãos reguladores. É o fa moso “Pratique ou Explique”, práxis desse mercado. Curioso, a CEMIG (companhia de energia das Minas Gerais) que tem uma diretoria de sete membros e Conselho de Administração com 11 integrantes … adivinhe quantas mulheres ocupam cadeiras na alta administração? Se chutou zero acertou na mosca. Nesta companhia gigante, uma das primeiras brasileiras a negociar títulos na Bolsa de Nova York também, mulheres importam para servir cafezinho e, talvez, replicar e-mails e assinar carteira de trabalho.

A onda cor-de-rosa que sacode o mercado com o lançamento do filme Barbie pode servir como alavanca para esta discussão. Coincidência ou não, foi o que fez a CVM pedindo, inclusive, para que o “Pratique ou Explique” conste do Formulário de Referência (FRE), documento público que toda empresa aberta deve preencher e disponibilizar para consultas.

Se determinadas companhias ainda não sabem, a gente pode ministrar palestra e ajudar a explicar o que rola neste mundão novo com porteira. Como aperitivo, lá vão alguns dados: no Brasil (segundo o IBGE, 2022) a população brasileira é composta por 48,9% de homens e 51,1% de mulheres e existem pelo menos 3 milhões de pessoas que se declararam do grupo GLBTQIA+.

Não é possível ignorar o novo Brasil, muito menos a tia do cafezinho, a motorista de aplicativo, a dona do bazar e a gerente da pizzaria, tampouco a mulher executiva que lidera grandes organizações e faz acontecer. Não é possível mais fingir que o “Outubro Rosa” é só uma peça de marketing, ou que ESG é pra inglês ver. Não é possível também que você, internauta, ignorava o lançamento do filme da Barbie impulsionando uma avassaladora onda cor-de-rosa. E fica como dica: se não tiver dinheiro agora, peça para sua mulher, ou namorada, ou ficante, que ela te leva ao cinema. Muito provavelmente, com prazer.

 

Nelson Tucci é jornalista profissional diplomado, autor de três livros sobre História do Brasil, Mercado de Capitais e Terceiro Setor (Jovem Aprendiz). Trabalha no quarto livro, sobre pessoas com Esclerose Múltipla, escreve sobre sustentabilidade e é palestrante nas horas vagas.

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