NEM SÓ DE SELIC VIVE O CUSTO DO CRÉDITO

ARTIGO DE ELBER LARANJA

Embora o debate sobre a taxa básica de juros no Brasil ocupe os noticiários de economia quase de forma permanente, é bom lembrar que esse importante vetor na formação do custo efetivo total de uma operação de crédito não está sozinho na cena.

Basicamente, o preço do crédito ao consumidor é composto por custos operacionais do credor, tributos, custo de captação e prêmio de risco (sendo, cada um desses itens, desdobráveis quase ao infinito). A taxa básica de juros se refere a apenas um desses componentes: o custo de captação, ou seja, quanto o próprio credor paga pelo capital que ele emprestará ou, em outra perspectiva, enquanto o credor poderia rentabilizar o seu capital sem se expor aos riscos de uma operação de crédito.

Para além da SELIC os outros componentes do preço do crédito também atuam fortemente, sobretudo, o chamado prêmio de risco. Uma prova disso, podemos obter na análise dos dados do Bacen sobre taxa média de juros para empresas, por exemplo, que teve uma variação para mais de 1,6% de junho de 2022 a fevereiro de 2023, passando de 22,6% para 24,2% ao ano, no período em que a SELIC se manteve inalterada em 13,75%.

Dado o fato de pouco se poder fazer sobre a carga tributária, que pode até ser absurda, mas está posta, e tendo em vista o que o custo operacional não está entre os mais relevantes na formação do preço do crédito, uma variação substancial como essa [1,6%] em um período de oito meses, indica que credores estão refletindo um momento de fortes incertezas no cenário econômico, e como forma de se protegerem dos riscos adicionais oferecidos pela conjuntura atual, têm aumentado o prêmio cobrado para emprestar dinheiro para as empresas (que são aqui o nosso objeto de análise, mas a lógica também cabe para crédito a pessoas físicas).

O que chega às prateleiras para as empresas em termos de taxa em uma operação de crédito não é a SELIC, e sim, um custo efetivo total baseado em fatores que variaram quase 7% de junho a fevereiro (quando comparadas as taxas médias do início e final no período), contra nenhuma variação da SELIC, o que torna visível que há coisas, no mínimo, tão importantes quanto a taxa básica na precificação do crédito.

A SELIC nunca deixou de ser um fator importante para o preço final do crédito, mas se a preocupação realmente é reduzir o custo do dinheiro tomado por empresas e famílias, os números mostram que o debate simplesmente sobre esse componente é superficial e desvia o foco de questões muito críticas que poderiam levar a um crédito com preço justo e aos efeitos econômicos que dele se espera.

Instabilidade jurídica, intermináveis momentos de controvérsias políticas, reformas estruturais pendentes, gastos públicos exacerbados, retração econômica, alta dos índices de inadimplência, proteção excessiva a devedores e a indústria do “limpe seu nome”, são alguns exemplos de conjunturas e práticas que contribuem para uma precificação majorada do prêmio de risco. Esses são tópicos tão relevantes quanto a própria SELIC para serem discutidos e tratados com vistas à redução das taxas de juros reais no Brasil, afinal, nem só de SELIC vive o custo do crédito.

Elber Laranja é sócio-fundador da fintech Antecipa Fácil. Empresário no setor de compósitos tendo iniciado suas atividades como gestor no ano 2000, ele gerenciou mais de 300 projetos de desenvolvimento de produtos e serviços em compostos plásticos reforçados. Como consultor, prestou serviços de assessoria empresarial, desenvolvendo trabalhos no âmbito do gerenciamento financeiro. Atualmente está à frente do projeto de desenvolvimento de modelo de negócio da fintech, com ênfase em pequenos negócios. É formado em administração de empresas e pós graduado em gerenciamento de projetos pela Fundação Getúlio Vargas.

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